Medo que assusta

 Dia 31 de março de 2026, terça feira, trimestre terminando, chuva!!!!


Minha amiga Érika!


    Muito feliz em ler seu relato de ontem! Um dia em algumas horas; cenas, passagens, frases, reflexões importantes. Ao perceber o que vemos, pensamos, sentimos, não estamos dando espaço para a mente vazia, ao contrário, mantemos o foco. E o foco é tudo.

    Enquanto lia, percebi e não pude deixar de observar a palavra medo! E recordei-me de quanto tempo o medo lhe acompanha em vários momentos! E, de certa forma, creio que foi ele que nos fez passar a conversar anos atrás.

    Lembro que falamos sobre ele por longo tempo na época de sua gravidez. O medo de que a questão da diabetes pudesse criar complicações, depois o medo de que algo poderia acontecer, o medo invisível, sem identificação, que vêm, que vai, que volta.

    Ontem foi dia de atividade na Nossa Casa. Quando cheguei em casa, já perto da meia noite, fiquei pensando, depois de ouvir orientações, advertências e correções das Entidades, que vivemos muito pouco na chamada vida espiritual!

    As entidades falam coisas simples, claras, e nós complicamos tudo insistindo em nos manter focados no material, entendendo o espiritual, mas na hora H, quando é preciso respirar, quase sempre caímos nos mesmos processos e atitudes de pensamentos e emoções e desequilíbrios e péssimas escolhas, que sempre fizemos, dando prioridade ao material!

    E diante dessas reflexões, eu lembrei do medo, e tentei me recordar um pouco do medo que passou (e passa) pela minha vida e de tantas outras pessoas que mantive contato abordando esse tema. E ficou claro para mim, depois de pensar um pouco, que não tem como separar, deixar de lado, as nossas vivências no passado (também algumas nesta própria vida - o que muitos chamam de questões pró traumáticas). 

    Eu era pequeno, não mais que 6 ou 7 anos, e era um domingo, final do dia. A casa da minha avó era onde morávamos - com ela - e havia um quintal enorme na parte mais ao alto do terreno (a casa ficava um pouco abaixo). Neste quintal, funcionava como uma espécie de garagem - mesmo sem ninguém ter carro na época. E, ao lado deste quintal, havia uma parte com espaço para plantas, vegetação e elas estavam crescendo e ficando maiores. E, não sei por que cargas d´água, inventaram de colocar fogo nesta pequena vegetação. Pensando bem, isso era o comum, já que minha avó sempre viveu em fazenda, sítio, boa parte da vida e era assim que se limpava o solo, com a queimada. 

    E então o fogo foi aceso. E eu senti pela primeira vez na vida um terror. Um pavor inexplicável e lembro-me de correr e segurar na saia da minha avó e, chorando muito, pedir para apagar. Claro que fui ignorado a princípio. Estava meu tio, outras pessoas, e então eu comecei a berrar, parecia que ia ter um troço, e acabaram, acho que mais por medo daquela criança ter alguma coisa, do que por convicção, apagando o fogo... E, quando apagou, eu acalmei. E sosseguei, mas não sem antes ainda lembrar da ideia do clarão e do calor das chamas, mesmo distantes. 

    E esse medo me passou por toda a infância. Nos casos e histórias dos grandes incêndios dos anos 70 em São Paulo (Joelma, Andraus), com centenas de mortos, filmes sobre esse tema, eu começava a ver e praticamente nunca terminava. Mesmo as séries que apareciam na TV, mesmo poucas na época, lembro de uma que era de bombeiros. E eu trocava de canal. Era de domingo a noite que passava e só de ver a chamada, aquilo me fazia arrepiar e ficar com medo de dormir, de acontecer um incêndio na casa. 

    Sabe quantas vezes aconteceu algo comigo sobre incêndios, nesta encarnação? 

    Isso mesmo: zero! 

    Em nenhum momento desta vida eu passei perto de vivenciar nada que pudesse explicar esse temor todo. E, ele ainda existe. Se eu deixar a mente ficar vagando, potencializando, eu passo a sentir incômodo. Não mais medo, mas uma sensação que pode me tirar um pouco da sensação de paz.

    Duas décadas atrás, em Caraguatatuba, durante uma das datas juninas, estava com amigos em uma casa onde decidiram fazer uma fogueira. Festa junina e fogueira significam tradição. Mas nessa época eu já estava em um centro espírita e algumas das pessoas que lá estavam eram também do centro. E, durante o momento da fogueira, eu fiquei meio quieto, só vendo e ouvindo o crepitar dela... e então uma das pessoas que estavam conosco falou que se sentia como uma cigana em tempos atrás, ao ver a fogueira. E isso a fazia de alguma forma feliz. E tranquila. E ao mesmo tempo dava uma saudade enorme de algo que ela não sabia. E, no fundo dessa sensação, um medo de não viver aquele sentimento novamente.

    Aquelas palavras, Erika, me deixaram pensando e eu comecei a perceber que o que eu significava como algo ruim, era para outra pessoa, algo bom! Muito bom! 

    Tempos depois ouvi a explicação dos espíritos, que o que nos impacta, seja bom ou ruim, fica dentro de nós, além da encarnação, e além do Outro Lado também. Mas isso não significa que iremos reviver aquilo da mesma forma, seja a infelicidade, a dor, seja a alegria, a euforia. E isso porque tudo segue, e não somos mais quem éramos, não somos mais participantes de algo que passou. Simplesmente passou. Foi assimilado. Passou.

    A questão é o que fazemos com isso, agora, que temos a informação de que foi algo que passou. Que não vai se repetir. Porque aqui existe algo a se refletir (e deve ser dito milhares de vezes para ver se de fato internalizamos nas entranhas da nossa alma eterna!): Deus deixa que algo de ruim ocorra a alguém? Ele permite o mal? Ele aceita o mal? 

    Sabemos a resposta.

    Então quando somos alvo de algo desconfortável, violento, doloroso, porque o Pai deixa? 

    Ele não está atento? Ele se distraiu? Nos deixou de lado?

    Sabemos a resposta.

    Crianças não sabem as respostas mais complexas, mas adultos sim. Impossível resolver uma equação do segundo grau sem antes passar pelo aprendizado da tabuada. Leva anos, leva esforço, leva desejo de entendimento, passa-se por fazer e refazer, aumentando o grau de dificuldade, até que dominamos aquilo e seguimos, com facilidade.

    Crer em Deus é crer na perfeição. Se algo nos ocorre, existe razão. E é justa. É pertinente. É sábia. É precisa. O Perfeito quer nos fazer assimilar elementos para que aprendamos e sigamos. 

    Parece óbvio. É óbvio.    

    Mas diga isso a quem não acredita que Deus é perfeição. 

    O medo tem suas razões. E elas são perfeitamente positivas pois nos fazem chegar mais perto de Deus.

    Mais perto de Deus, mais próximo da paz, da felicidade, do entendimento, da plenitude.

    Que venham os medos, pois quando o sentimos, é a Deus que nos agarramos em algum momento. 

    Que venha a compreensão da Justiça Divina. E de que, se existe o medo, existe um fundamento para o sentirmos. E, essencialmente, precisamos encontrar sua causa. Se não no presente, remexendo os nossos sentimentos e sensações do passado no inconsciente espiritual.

    No caso da fogueira da cigana, claramente percebi que em algum momento eu vivi algum momento de outra vida na companhia de algumas daquelas pessoas que lá estavam naquela noite de junho, fria, onde o ar parecia meio parado, o tempo se reconfigurando. Na fogueira de tempos distantes, ciganas dançavam, e de alguma forma, pessoas que representavam a Igreja  - eu entre eles - observavam e se encantavam além do que deveria ser o natural e, com a permissão voluntária de "deixar-se cair em tentação", jogaram fora uma grande oportunidade naquela vida. E, pior, deixaram traumas por muitos ângulos e situações. 

    A recordação imprecisa, naquela noite cheia de estrelas, não de imagens, ou cenas, mas de sensações do que eu havia vivenciado séculos atrás, fez-me perceber que o fogo que me aterrorizava desde a infância, vinha não do fogo em si, mas da saída da rota que eu havia escolhido para corrigir tantos erros de um passado ainda mais distante, delinquente, falando em "nome de Deus", "defendendo a fé em Deus", mesmo que para isso eu fosse capaz de cumprir a "justiça" na fogueira daqueles que eram contrários ao que eu e colegas pensavam, "em nome de Deus".

    Minha querida amiga, cada pessoa e única e cada caso é único. Nada é regra. Mas tudo pode comar de alguma forma. 

    Falaremos muito do medo, pois existem outras formas e causas e, o medo é muito importante para fortalecer aqueles que desejam não elevar, mas rebaixar, não acolher, mas afastar. O medo é umas das mais importantes ferramentas de domínio espiritual de um desencarnado sobre um encarnado. Mas isso fica para outro dia. 

    Essa carta ficou um tanto quanto longa... até o Sol saiu de novo por aqui...

 

                                                                                                                    Seu amigo Julio


Comentários

  1. Dia 31 de março de 2026, terça-feira, Ensolarado

    Olá Julio!

    Obrigada por compartilhar comigo sua história!
    Que bom que você conseguiu ter esta realização de que seu trauma vem de uma vida passada, na qual você já pode se sentir em paz, pois aqui nesta vida esta para ser superado e continuar na sua evolução, aliás temos sempre várias questões para serem trabalhadas em uma reencarnação, que felizmente com a doutrina espírita, temos a oportunidade deste entendimento.
    Interessante você ter a percepção de que aqueles amigos que estavam contigo naquela noite, foram companheiros de séculos atrás....novamente a espiritualidade que nos une com aqueles que temos historias, resgates e afinidades...e hoje juntos trabalhando em.um centro espirita em pro da caridade, amor e aprendizado...juntos!

    Me sinto assim quando entro em lugares medievais...tenho uma alegria, uma saudades quero até dançar! mas ao mesmo tempo uma aversão e arrepios as barbaridades da época...sempre tenho a sensação que algo me aconteceu e que não foi bom...mas que ao mesmo tempo, amo esta época....difícil de explicar...os romanos me trazem esta sensação de pavor...
    É difícil mesmo romper padrões, realmente o medo vem comigo desde muito pequena, sempre quis ser a filha que nunca causaria decepção aos meus pais, medo de passar vergonha, de errar no trabalho, de ter doenças e principalmente de ser presa! Ser julgada em uma corte, ser presa inocentemente, torturada....ai...nao gosto nem de pensar....

    Hoje estava tratando esta questao do medo com minha terapeuta, que chegamos a uma reflexão que muito vem do fato de eu nao entender as nuances da vida...que as coisas nao sao "certo" e "errado", que tudo bem relaxar. Que toda regra tem uma exceção, e de fato se me dizem que algo é certo eu ja entendo que se nao for daquela maneira, então é errado e se é errado, algo terrivel acontecerá.
    Uma vez você me disse que a Mana fala que fé e medo nao combinam...e concordo, mas ao mesmo tempo, se nao fosse a minha fé que Deus é bom e sempre, meu medo ja teria me levado a caminhos muito piores....

    Ontem no centro foi comentado contigo em viver o lado mais espiritual...e realmente isso faz diferença...hoje percebo nas pessoas a preocupação diária no "ter" aqui na vida material...qual o limite? Aonde estamos colocando nossa paz e felicidade?
    Interessante eu refletir o que era paz e felicidade para mim ha 20 anos atrás e o que é hoje!
    Partindo do princípio de que a vida depois da desencarnaçao é apenas uma extensão do que somos hoje, tento canalizar meus dias em ser e nao em "ter"...quero ser útil mesmo depois do desencarne, nao quero estar e ser apegada as coisas daqui...e disso nao tenho medo!
    Muito me passa pela cabeça enquanto escrevo a ti...mas ficará para uma próxima carta...chegou a hora de ir buscar meus tesouros na escola.

    Obrigada por me trazer suas reflexões, histórias e ensinamentos

    Muita luz e paz para ti!

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